Dia 6: dislexia, o hang de Daniel Reis, um urso de folk afiado, o bafo de um dragão e a baleia que nos levou a energia

Quase uma semana depois, eis que o NOVO se deparava com a condição que o universo reserva a todas as coisas, a sua própria finitude. O que é bom acaba depressa e é estranho pensar que tanta ansiedade, azáfama e adrenalina estavam a poucas horas de ceder o lugar à descompressão.

Prestes a arrancar para o sexto e último dia, a Mostra da Nova Música Portuguesa vinha embalada por uma sequência de êxitos a vários níveis. Quer na confirmação de um cartaz com qualidade, quer na recetividade mostrada pelo público. Os locais escolhidos revelaram-se igualmente uma aposta certeira para acolher as diversas iniciativas associadas ao festival, assim como os parceiros confirmaram a excelência de uma contribuição fundamental para o sucesso de um evento deste género.

Ovar mexeu, tremeu e dançou, animado pelos artistas que por aqui passaram, tão singulares quanto extraordinários na bela arte da fazer música. Mas o NOVO, atrevido como nos habituou a ser, haveria de guardar para o fim os concertos.

Primeiro estava prevista a última visita guiada à Rua do Azulejo, no centro da cidade, momento que contou com um grupo superior a 20 pessoas. Desta vez, entre os curiosos estavam elementos de nacionalidade portuguesa e alemã.

Ao mesmo tempo, também pela manhãzinha, foi inaugurada uma feira de discos no Largo dos Bombeiros Voluntários, em frente à Casa do Povo. A oportunidade serviu para algumas produtoras darem a conhecer trabalhos independentes de autores com menor notoriedade.

A Confraria Gastronómica de Ovar também marcou presença com um pequeno stand, expondo um leque de delícias capazes – se é que era possível! – de adoçar ainda mais a edição de 2017 da Mostra.

A Casa É Sua, patrocinador oficial do NOVO, não se coibiu de dizer presente nesta iniciativa, montando um stand a divulgar a «lambarice» que também são os imóveis do seu menu.

No entanto, faltava o último vendaval de artistas para abanar com os nossos sistemas. Os Dyslexic Project foram os primeiros a atuar. Fizeram-no às 18h no largo da feira de discos, com a sua imersão num experimentalismo sonoro pouco convencional, divagante e inquieto. Sem dúvida uma experiência a recomendar e um ótimo lançamento para o que estaria por vir.

 

Da parte da noite, Daniel Reis atuou às 21h30 no Twelve Café com o seu hang. Uma performance distinta de tudo o resto que apareceu na Mostra, e que além de enriquecer os géneros de música apresentados nos soube acariciar os ouvidos.

 

Atuação: Daniel Reis

 

Às 22h30, Gobi Bear mostrava-se ao público na Casa do Povo, onde tudo começou e onde, mais tarde, haveria de acabar. O folk adornou a acústica no sítio do costume, que teve direito a um Diogo Pinto exímio na interpretação dos temas e a oferecer um excelente espetáculo.

 

Concerto: Gobi Bear

 

Uma hora depois, chegava a vez do Ó Chico Snack-Bar entrar em cena nesta edição do NOVO como um dos palcos da Mostra. Aqui se deu nova performance do cartaz, com um Dragão Inkomodo de notas afiadas e de muito experimentalismo a emanar como fogo.

 

Atuação: Dragão Inkomodo

 

Tic-tac, tic-tac… O final aproximava-se mas não sem antes ouvirmos as valentes batidas e guitarradas trazidas pelos Baleia Baleia Baleia. A partir das 00h30, a Casa do Povo despediu-se com muito punk rock, num último suspiro do festival que soube apelar às últimas reservas de energia que cada um tinha guardado.

 

Concerto: Baleia Baleia Baleia

 

Ena… e parece que já não há mais para relatar. Será mesmo assim? Acabou? Uma espreitadela rápida ao calendário confirma… não é dia das mentiras. Mas hoje foi sábado, amanhã é domingo, de certeza que há mais qualquer cois… Não? Como não? Acabou mesmo? Pois parece que sim…

Vamos então processar, acreditar na verdade que se vai sedimentando diante dos nossos olhos, e depois… bem, atiremo-nos para o sofá a descomprir toda a tensão e pulsão acumulados ao longo dos últimos dias.

Para trás vai ficar sempre uma edição memorável, a terceira, da Mostra da Nova Música Portuguesa em Ovar. Inacreditável como em três anos o festival amadureceu e se deu à cidade e à música. Incrível como houve entidades que acreditaram neste projeto e o elevaram até onde talvez as melhores expetativas não ousavam chegar. E aqui se incluem todos os envolvidos, desde os patrocinadores, aos apoios, aos responsáveis pelos espaços do festival, aos voluntários, aos oradores nas conferências, aos guias das visitas guiadas, e, naturalmente, aos artistas, músicos e cineastas, agentes ou técnicos de som. Por último – ou pensavam que nos íamos esquecer? – ao grande Público vareiro. Sim, um Público de «P» grande. Enorme e inexcedível, que vai certamente fazer a rádio AVfm ficar corada de orgulho e de agradecimento durante uns belos meses.

Afinal de contas, é por isto que se trabalha. Queríamos um grande festival e assim o tivemos, graças a esta comunidade fantástica que se envolveu e deixou envolver. Sabemos que a fasquia ficou mais alta para o próximo ano. Mas como até lá ainda falta tanto… desfrutemos do sucesso durante mais algum tempo, de sorriso no rosto e com esperança em relação a um futuro cada vez mais brilhante.

Obrigado e até para o ano!

 


Foto: Diogo Marques & João Nunes Silva
Texto: Ricardo Marques