Mi-Fá-Dó-Sol | 05 Jun 2019

Carlos Reis e Dino Marques

Programa: Mi-Fá-Dó-Sol

Descrição: Programa inteiramente dedicado ao Fado. Realizado por intérpretes do género musical, Mi-Fá-Dó-Sol foca-se na divulgação de artistas e eventos, sem deixar de lado a história e as curiosidades de tão importante património português!

De:  Carlos Reis e Dino Marques

Emissão: 05 Jun 2019

Artista em Destaque: Camané

Carlos Manuel Moutinho Paiva dos Santos, conhecido por Camané nasceu em Oeiras a 20 de Dezembro de 1966. É o irmão mais velho dos fadistas Hélder Moutinho e Pedro Moutinho.
Camané desperta para a música um pouco por acaso, quando durante a recuperação de uma maleita infantil se embrenhou na coleção de discos dos pais. Além de Frank Sinatra, Charles Aznavour e Os Beatles, deixa-se fascinar pelos grandes intérpretes do Fado: Amália Rodrigues, Fernando Maurício, Lucília do Carmo, Maria Teresa de Noronha, Alfredo Marceneiro e Carlos do Carmo[2]. Como conta o fadista em entrevista ao Diário de Notícias. «Gravei o meu primeiro disco após um telefonema de Amália»,
“ Lembro-me de ouvir os discos de fado. E de o meu pai trautear alguns daqueles fados. Achava muito esquisito e não gostava nada daquela forma de cantar, irritava-me. Mas estive doente nessa altura e fiquei um mês em casa. Só tinha três discos que não eram de fados, o resto era tudo, Marceneiro, Amália, Carlos do Carmo… Havia um disco dos Beatles, um do Frank Sinatra, e um do Aznavour. Ouvi esses discos compulsivamente, mas depois lá passei aos de fado. Achei mesmo muito esquisito, no início, confesso. Mas depois comecei a perceber que conseguia cantar aquilo. (…)”

Com apenas 11 anos participa pela primeira vez na Grande Noite do Fado, numa época em que não havia competição em separado para os mais novos. Dois anos depois, na edição de 1979, alcança a vitória e é convidado a gravar um LP produzido por mestre António Chainho.
Na instrução escolar não chegou a completar o nono ano, pelo que o pai, chefe de construção naval, lhe arranjou um emprego a calafetar barcos no Arsenal do Alfeite. Esteve lá durante dois anos, até ser chamado a cumprir o serviço militar obrigatório.
Por essa altura, por intermédio de Carlos Zel e do irmão deste, o guitarrista Alcino Frazão, inicia como profissional o circuito das casas de Fado. Passou pelas principais da capital — Fado Menor, O Faia, Adega Machado, Café Luso, Clube do Fado e Senhor Vinho —, uma rodagem que se revelou uma verdadeira escola, como afirma em entrevista ao Expresso a 18 de maio de 2002.
“ Aprendia-se muito. Estava com pessoas muito mais velhas que eram músicos muito experientes. Foi nessa aprendizagem que me formei e adquiri a minha escola. Fazia o que mais gostava de fazer na vida. Era um ambiente muito engraçado porque, quando acabávamos de trabalhar, ao fim da noite, juntava-se a malta das casas todas e eram momentos íntimos e muito criativos onde se contavam histórias do passado. Muitas vezes ficávamos ali a cantar uns para os outros, até às sete, oito da manhã. ”

Estava ainda na tropa quando gravou o single Ai Que Saudades.
Em 1990 é convidado por Filipe La Féria para o programa Grande noite da RTP. Em 1992 integra o elenco de Maldita Cocaína de La Féria. Surge entretanto o convite para gravar o seu primeiro CD Uma Noite de Fados, editado em 1995, é gravado ao vivo, durante quatro noites consecutivas, no Palácio das Alcáçovas, recriando o ambiente de uma verdadeira casa de fados. Que o confirma, e o consagra em definitivo como um dos intérpretes mais impressionantes.
O álbum é igualmente marcado pelo início de uma profícua colaboração com José Mário Branco, como produtor e como compositor.
Eleito pela crítica especializada como a voz mais representativa da nova geração do Fado, a qualidade do seu trabalho é reconhecida também pelo grande público, abrindo-lhe a porta das salas de espetáculos.
A partir da década de 90 afasta-se progressivamente das casas de Fado e realiza cada vez mais concertos, quer em Portugal quer no estrangeiro. Realiza as suas primeiras atuações em França, Holanda, Itália e Espanha.
Camané participou no concerto comemorativo de 35 anos de carreira de Carlos do Carmo, um dos grandes nomes da velha guarda do fado, realizado no Centro Cultural de Belém.
Para o início de 2000 estava reservado um novo passo na carreira de Camané: a edição em simultâneo na Bélgica, Holanda e Portugal do terceiro trabalho discográfico de Camané – “Esta Coisa da Alma”. A edição deste trabalho na Holanda e na Bélgica foi acompanhada por uma tournée por algumas das mais importantes salas destes países, destacando-se duas noites em Amesterdão ou ainda a participação no Festival de Brugges, seguindo-se concertos em Espanha, Suíça, Alemanha e França. Em Portugal, “Esta Coisa da Alma” foi apresentado em diversas localidades do país sendo um dos pontos mais altos o espetáculo realizado em Outubro, no Centro Cultural de Belém.
Evidenciando o merecido reconhecimento por parte do público pelo trabalho global efetuado em torno deste “Esta Coisa da Alma”, Camané recebeu o disco de prata pelos 10 mil exemplares vendidos.
Em 2001 recebe o Prémio Blitz para Melhor Voz Masculina Nacional, o Prémio Bordalo Pinheiro, da Casa da Imprensa para Melhor Intérprete de Música Ligeira e um Globo de Ouro, da SIC para Melhor Intérprete Individual. No final desse ano lança o seu quarto CD, Pelo Dia Dentro, novamente com produção de José Mário Branco, e participação do mesmo trio de músicos do seu anterior álbum: José Manuel Neto (guitarra portuguesa), Carlos Manuel Proença (viola) e Carlos Bica (contrabaixo).
Já em 2001, entre Fevereiro e Março, realizou diversos espetáculos em Portugal e França. Em Novembro desse ano foi lançado o seu 4º CD “Pelo Dia Dentro” que alcançou apenas três semanas depois do seu lançamento o disco de prata.
Em Abril de 2002, Camané participou num espetáculo concebido em conjunto com a atriz portuguesa Manuela de Freitas em torno da obra de Fernando Pessoa e apresentado em Bruxelas.
Muitas foram as localidades ao longo do ano que fizeram parte desta tournée “Pelo Dia Dentro” que se prolongou com um conjunto de apresentações na Holanda e Bélgica em Outubro e Novembro de 2002.

O disco ao vivo Como Sempre… Como Dantes é editado em 2003. O disco atinge rapidamente o galardão de Disco de Ouro e dá o mote para a realização de vários espetáculos ao longo do ano de 2004. Colabora com os Xutos & Pontapés , Sérgio Godinho e na revisitação do disco “Um Homem Na Cidade”.
Ainda nos primeiros meses de 2003 foi publicada uma compilação com a particularidade de incluir regravações de temas de “Uma Noite de Fados”, o primeiro CD de Camané, efetuadas no final de 2002.
A propósito de um convite do Teatro São Luiz para uma série de espetáculos no Jardim de Inverno, Camané idealizou o projeto “Outras Canções”. Nos seis concertos que integraram a série interpretou canções de grandes nomes da música portuguesa e brasileira, que constituem as suas referências nos diversos géneros musicais.
O ano de 2004 marca também o seu envolvimento num projeto associado a um género musical diferente do Fado, ao integrar os Humanos que recuperaram canções inéditas de António Variações. Acompanhando Manuela Azevedo e David Fonseca, além dos músicos Nuno Rafael, João Cardoso e Hélder Gonçalves, o grupo edita os álbuns Humanos e Humanos ao Vivo,
Chegando a novos públicos, Camané realça que a sua forma de cantar algo diferente vem precisamente da carga emotiva e interpretativa que lhe dá o Fado, mas que não se esgota nesse género. Neste âmbito integra-se também o espetáculo Outras Canções, realizado no Teatro de São Luiz, em 2005, onde Camané interpretou canções de referência da música portuguesa e brasileira. A Fundação Amália Rodrigues atribuiu-lhe o prémio de Melhor Intérprete Masculino na sua primeira gala realizada em 2005.
Em 2006 é lançado o DVD Camané ao Vivo no S. Luiz com base nos concertos realizados na digressão do espetáculo Como Sempre… Como Dantes. Ainda nesse ano realizou, com Carlos do Carmo, um grande concerto de encerramento das Festas de Lisboa, com um palco instalado nos jardins da Torre de Belém e que registou uma audiência de 20 mil pessoas.

No início de 2007, Camané concentrou energias na preparação e ensaios para a série de concertos “Outras canções ” que realizou em Maio/Abril na sala principal do Teatro São Luiz, com a participação da Orquestra Sinfónica de Lisboa, interpretando temas de Sinatra, Brel, Jobim, entre outros.
Ainda em 2007 marca a estreia do fadista no cinema interpretando dois temas no filme Fados da autoria do premiado realizador espanhol Carlos Saura que juntou diversas gerações do Fado.
Em 2008 é editado o álbum Sempre de Mim. O disco inclui dois inéditos de Alain Oulman (“Sei De Um Rio” e “Te Juro”), poemas de Luís de Macedo nunca antes musicados, um fado de Sérgio Godinho ou uma letra de Jacinto Lucas Pires num fado tradicional. Mantém-se as escolhas de poemas de Fernando Pessoa e Pedro Homem de Mello e a habitual colaboração de Manuela de Freitas e José Mário Branco.
Em 2008 participa também no disco solidário UPA – Unidos Para Ajudar, no qual colabora com os Dead Combo numa versão de Vendaval.
Após o lançamento de “Sempre de mim”, Camané iniciou uma digressão por todo o país, passando pelas míticas salas dos Coliseus de Lisboa e Porto, pela primeira vez em nome próprio.

Camané e Aldina Duarte participam no filme luso-francês A Religiosa Portuguesa (2009), de Eugène Green, onde Camané canta Ser aquele, tema composto sobre um poema de Fernando Pessoa.
Em Março de 2009 Camané recebeu a nomeação para Melhor Intérprete nos Globos de Ouro, e dois meses depois, apresentou-se no Centro Cultural de Belém em duas noites esgotadas. Em “Carta-branca a Camané”, o fadista teve a seu lado Mário Laginha e a Orquestra Metropolitana de Lisboa e interpretou os seus fados de sempre com novos arranjos feitos pelo próprio Mário Laginha, José Mário Branco e também pelo maestro Cesário Costa.
Como forma de registar aquele que foi um concerto memorável, foi editado, em Julho de 2009, o segundo DVD do fadista – “Camané ao Vivo no Coliseu – Sempre de Mim”. Este DVD retrata o concerto no Coliseu dos Recreios realizado em Maio do ano passado, onde Camané, para além de apresentar o seu último trabalho passa também por temas emblemáticos que têm marcado a sua carreira.

Em 2010 é editado o álbum Do Amor e dos Dias. O fado mais popular deste álbum é A guerra das rosas, letra de Manuela de Freitas e música de José Mário Branco, inspirado no filme com o mesmo nome. Este álbum acrescenta à sua carreira o comentário a um poema de Alexandre O’Neill, O amor é o amor.
Camané atua em 2011 em Nova Iorque, num concerto elogiado pelo New York Times. O fado Já não estar, da banda sonora do documentário José e Pilar chega a fazer parte de uma pré-seleção para o Óscar de Melhor canção original, pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas dos Estados Unidos. Colabora com os Dead Combo em “Ouvi O Texto Muito Ao Longe”.
Em Fevereiro de 2011 Camané regressa ao São Luiz Teatro Municipal para apresentar uma série de quatro espetáculos cujo tronco principal se baseou no seu último trabalho, “Do Amor e dos Dias”, complementados com a inclusão de temas distintos de noite para noite, do repertório poético do universo fadista sob a temática do amor e dos dias, revelando assim o conhecimento e o respeito que mantém pelos seus mestres.
“Do Amor e dos Dias” recebeu a distinção dos Prémios Amália na categoria “Melhor Álbum do Ano”.
O ano de 2011 foi também um ano de parcerias… Camané colaborou com os Dead Combo no disco “Lisboa Mulata” e com o Mestre Fernando Alvim no disco “Os fados e as canções do Alvim”.
Em Setembro de 2012 Camané regressa a França para assim participar na Homenagem a Cesária Évora, acompanhado pelos músicos da cantora Cabo Verdiana e cantando um dueto com Nancy Vieira, pode-se afirmar que a Homenagem à grande diva foi grande em “Sodade”.
Em Outubro de 2012 Camané actua pela primeira vez em Montreal, deixando os quebequenses apaixonados pela mística do fado e mais uma vez com críticas merecedoras.
Em 2012, Camané, colabora com o guitarrista António Chainho no disco “Entre Amigos”, com Rui Veloso no disco “Rui Veloso & Amigos “ com a canção “Conceição”, e ainda com Paulo de Carvalho no disco intitulado “Duetos de Lisboa “.
Camané juntamente com o escritor e poeta Vasco Graça Moura, recebe o Prémio Europa- David Mourão Ferreira- na categoria Mito, que visa galardoar a carreira de uma personalidade eminente da cultura lusófona que se tenha distinguido no campo das letras e das artes. Este prémio é atribuído pela Universidade de Bari Aldo Moro e o Instituto Camões com o objetivo de contribuir para a divulgação da língua e da cultura portuguesas nos países da União Europeia e do Mediterrâneo.

O Ano de 2013 é o ano de reflexão musical, Camané faz uma viagem pela sua carreira, lançando em Finais de Abril, uma coletânea que tem por título Camané – O Melhor. Um disco duplo que inclui os inéditos Ai Margarida, com música de Mário Laginha para um poema de Álvaro de Campos, e Ai Silvina, Silvininha, uma música inédita de Alain Oulman sobre um poema de António Gedeão . O fadista regressa ao Coliseu dos Recreios tendo convidados especiais como Carlos do Carmo, Mário Laginha, Aldina Duarte e a polaca Anna Maria Jopek. Ainda em 2013 colabora com Pedro Abrunhosa no tema Para os Braços da Minha Mãe., tornando-se num êxito imediato, alvo de milhares de partilhas nas redes sociais.
Com o apoio do Montepio, Camané iniciou o ano de 2014 com uma Digressão por quinze cidades portuguesas para dar a conhecer “O MELHOR”.
A Digressão “O Melhor Ao Vivo ”, conta com uma entusiástica adesão do público, que esgotou invariavelmente as salas por onde passou.
A sua genuinidade explica o êxito, o reconhecimento e o lugar conquistado por Camané na música portuguesa.
Em 2014 junta-se a Jorge Palma, à soprano Elisabete Matos e aos Xutos & Pontapés para participar no espetáculo Música em degradé – da ópera ao rock, no Pavilhão Atlântico. Ainda nesse ano reencontra David Fonseca, com quem faz um concerto no Mercado da Ribeira inserido no evento A maior casa de fados do mundo. O documentário “Fado Camané” é estreado em 2014
Em 2015 regressa aos discos de originais com o disco Infinito Presente, com entrada direta para o primeiro lugar no top de vendas.
Em 2015, o fadista, atua pela primeira vez no México, Regressa à Turquia, rendendo-se à emoção em cima do palco.

Em Março regressa aos Estados Unidos e ao Canadá. 6 Concertos, 6 teatros lotados. A digressão passou por New Jersey e São Francisco. Onde o público ficou rendido pela sua emoção e autenticidade em cima do palco. No Canadá, as cidades de Toronto, Montreal e Vancouver, também excederam todas as expectativas.

Editará em 2017 um novo álbum no qual prestará homenagem a Alfredo Marceneiro.
Em Março de 2017, Camané junta-se à Orquestra Metropolitana de Lisboa, dirigida pelo Maestro Cesário Costa e ao Coro Ricercare.
Esgotam 4 concertos consecutivos no Teatro São Luiz Teatro Municipal.
Estes concertos mostraram um Camané em boa e louvável harmonia com orquestra, na sua voz magnífica.
Numa retrospetiva dos seus temas mais conhecidos e dos maiores sucessos da sua carreira, Camané revisita os últimos vinte anos mas, também, onde nos dá a sentir temas inéditos, com arranjos musicais de Filipe Raposo.
A crítica é unânime: ”Camané: a alma canta e o fado acontece”; “O São Luiz inteiro aplaude, sem esforço, de pé”.

Sérgio Godinho escreve assim sobre o fadista, no livro do musicólogo Rui Vieira Nery, Para Uma História do Fado:
“ Do Camané deve dizer-se que” não há palavras” a não ser as que exigem “silêncio, que ele vai cantar o fado”. E fica-se, de boca aberta e veneranda, em presença do novo príncipe, do plebeu mais ilustre dos nossos sentimentos.
É de facto o nosso príncipe, o novo rei que nunca nos rouba as terras. Pelo contrário, fá-las nossas com sua arte do bem dizer, o nasalado especial que repercute no peito e na garganta, e sobretudo o desarrancar da “alma de dentro” de que ele conhece os mistérios; com gosto e suprema intuição. ”

Playlist:

Camané – Sei De Um Rio
Camané – Olhos Fatais
Camané – Se Ao Menos Houvesse Um Dia (2)
Camané – Saudades do futuro
Camané – A Guerra Das Rosas
Camané – A Minha Rua
Camané – Acordem As Guitarras
Camané – Bicho De Conta
Camané – Ao Correr da Pena
Camané – Dança De Volta
Camané – Balada
Camane – Depois Que Um Beijo Me Deste
Camané – Escada Sem Corrimao
Camané – Esquina De Rua




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