Mi-Fá-Dó-Sol | 15 Mai 2019

Carlos Reis e Dino Marques

Programa: Mi-Fá-Dó-Sol

Descrição: Programa inteiramente dedicado ao Fado. Realizado por intérpretes do género musical, Mi-Fá-Dó-Sol foca-se na divulgação de artistas e eventos, sem deixar de lado a história e as curiosidades de tão importante património português!

De:  Carlos Reis e Dino Marques

Emissão: 15 Mai 2019

Artista em Destaque: Argentina Santos

A fadista Argentina Santos, de nome completo Maria Argentina Pinto dos Santos, nasceu no Bairro da Mouraria, em Lisboa, a 6 de Fevereiro de 1924. Filha mais nova de 3 irmãos, iniciou a instrução primária, mas pela necessidade de trabalhar não chegou a terminar. Já em idade adulta frequentou aulas para aprender a ler e escrever.
Ainda criança começou por fazer recados e compras para as senhoras do bairro e depois foi trabalhar numa peixaria, onde se manteve até 1950, altura em que abriu com o seu companheiro, a casa Parreirinha de Alfama, uma casa de pasto, rapidamente transformada em Casa de Fado.
Mulher corajosa e de muito trabalho dedicou-se à cozinha do espaço que abriu. Aí se juntavam muitos fadistas para petiscar e cantar e, a pouco e pouco, criaram o ambiente do restaurante que ainda hoje se mantém.
Considerada a última das divas do Fado Castiço, Argentina Santos, iniciou a sua carreira artística precisamente no restaurante “Parreirinha de Alfama”.
Argentina Santos não pensava em cantar, conforme conta em entrevista a Baptista-Bastos, quis o acaso que um dia alguém da assistência lhe pedisse para cantar, e assim “entrou numa desgarrada” por brincadeira. Atrás desse pedido outros vieram e o que começou por um mero acaso, acabou por tornar-se um “caso sério” na sua vida: para além de proprietária e cozinheira, passou a cantar para os seus clientes sempre que estes lho pediam e, “valha a verdade”, nunca mais deixaram de o fazer.
Para além do seu “cantinho”, durante muitos anos apenas aceitou, pontualmente, alguns convites que lhe foram dirigidos para cantar em algumas festas de amigos ou pequenas comemorações.
Ao contrário da maioria dos fadistas da sua geração, começou tarde a cantar, tendo até um percurso acidentado no meio do fado. O seu estilo muito pessoal de cantar, forte e autêntico, logo prendeu as atenções dos críticos e do público, almejando-a como uma das maiores promessas musicais da época.
No entanto, depois de casar, como o seu primeiro marido não gostava que cantasse, confinou-se à cozinha. Quando o marido morreu, voltou a cantar e teve um impulso na sua carreira.
Mas dois anos depois voltou a casar e a história repetiu-se. O segundo marido também viria a morrer e voltaria a cantar, iniciando uma fase que a levaria a ser conhecida.
Os CDs “Argentina Santos”, edição de 1998 da Movieplay, e “Argentina Santos”, coleção Antologia, editado pela CNM em 2004, são os mais recentes trabalhos discográficos, duma produção discográfica que não se tornou muito vasta fruto da sua personalidade tímida, mas também do facto dos seus companheiro não gostarem de a ver cantar em público nem apoiarem a sua carreira como fadista.
Tendo confinado durante anos as suas atuações a uma das mais emblemáticas casas de Fado de Lisboa, do qual é responsável até aos dias de hoje, não deixou por isso de se tornar conhecida e apreciada como cantadeira castiça, na linha das fadistas do passado, graças à autenticidade e ao estilo próprio das suas interpretações.
Tem um extenso repertório, todo construído para si, à exceção de A Lágrima (do repertório de Amália Rodrigues, com música de Carlos Gonçalves), e que tem na voz de Argentina Santos uma interpretação apreciada. Além deste, destacam-se, entre os seus êxitos, Duas Santas , Juras e Passeio Fadista.
Por isso mesmo, o grande público do seu país apenas a conheceu quando, pela mão do seu grande amigo e admirador Carlos do Carmo que a impulsionou para cantar nos palcos mais emblemáticos, nacionais e internacionais é vista na televisão, nos concertos por ele realizados no Coliseu dos Recreios (1994) e no Centro Cultural de Belém (1998).
A partir de 1994, pontificou ainda em inúmeros programas de televisão, sozinha ou ao lado de Carlos do Carmo, Jorge Fernando, Carlos Zel e a convite de entrevistadores como Júlio Isidro, Júlia Pinheiro ou João Baião.
Posteriormente a essas atuações deslocou-se ao Brasil (a S. Luís do Maranhão, em 1995, e a S. Paulo, em 1999 atuando na Casa de Portugal, com Carlos do Carmo), também atuou na Grécia, Escócia, França, Holanda,  País de Gales (aqui com Jorge Fernando), e ainda a Londres e a Itália.
A sua Parreirinha de Alfama tem sido cenário de muitos afetos: por lá têm passado grandes poetas do fado e compositores que lhe têm oferecido todo o reportório que possui. E, consciente da importância de ter um repertório próprio, Argentina Santos faz questão de cantar temas exclusivos, à exceção do fado “A Lágrima”, de Amália Rodrigues, e do “Lisboa Casta Princesa”, do repertório de Ercília Costa, mas popularizado por Lucília do Carmo.
Pela Parreirinha de Alfama também passaram nomes como Alfredo Marceneiro, Lucília do Carmo, Fernanda Maria, Berta Cardoso, Maria da Fé ou Celeste Rodrigues.
Sempre se dividiu entre os seus dotes musicais e culinários e sempre fez questão de ir comprar todas as manhãs o peixe à praça, assegurando-se da qualidade dos pratos que ali são servidos.
Em 1999, no dia 28 de Novembro, foi-lhe prestada uma festa de homenagem no Museu do Fado, tendo tido a cantar para si amigos tão especiais como Rodrigo, Jorge Fernando, Maria da Nazaré, Teresa Tapadas, e, como não podia deixar de ser, Carlos do Carmo.
No ano seguinte, a 28 de Abril, foi-lhe prestada uma homenagem no Coliseu dos Recreios em Lisboa, onde participaram inúmeros fadistas das várias gerações, que lhe teceram elogiosos comentários, demonstrativos do grande respeito inspirado pela fadista Argentina Santos aos seus colegas. Renderam-lhe homenagem grandes vozes como Carlos do Carmo, Camané, Jorge Fernando, Maria da Fé, Carlos Macedo, Rodrigo e Mafalda Arnauth.
A Fundação Amália Rodrigues, na sua primeira atribuição de prémios, em 2005, distinguiu Argentina Santos com o prémio “Carreira”.
Nesse mesmo ano a sua casa, a Parreirinha de Alfama, foi também agraciada com o troféu para Casas de Fado entregue no concurso Grande Noite do Fado.
A 27 de novembro de 2013, foi feita Comendadeira da Ordem do Infante D. Henrique.

Playlist:

Argentina Santos – A Minha Pronúncia
Argentina Santos – Chafariz d’El-Rei
Argentina Santos – Maria severa
Argentina Santos – Naquela noite em Janeiro
Argentina Santos – Gosto dele
Argentina Santos – Conde Afadistado
Argentina Santos – Os meus Passos
Argentina Santos – Vida Vivida.
Argentina Santos – Passeio Fadista
Argentina Santos – Amar Não É Pecado
Argentina Santos – As minhas horas
Argentina Santos – Drama de uma velhinha
Argentina Santos – Duas Santas
Argentina Santos – Herança Fadista
Argentina Santos – Lisboa Casta Princesa
Argentina Santos – Noite de Natal (Cm)




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