Mi-Fá-Dó-Sol | 20 Mar 2019

Carlos Reis e Dino Marques

 

Programa: Mi-Fá-Dó-Sol

Descrição: Programa inteiramente dedicado ao Fado. Realizado por intérpretes do género musical, Mi-Fá-Dó-Sol foca-se na divulgação de artistas e eventos, sem deixar de lado a história e as curiosidades de tão importante património português!

De:  Carlos Reis e Dino Marques

Emissão: 20 Mar 2019

Artista em destaque: Manuel de Almeida

Manuel Ferreira de Almeida conhecido no mundo fadista por Manuel de Almeida nasceu a 27 de Abril de 1922, em Lisboa, no Bairro da Bica.
Filho de Manuel de Almeida e de Belmira Ferreira, o fadista completou a instrução primária, mas sendo pouco interessado pela escola, com o acordo dos pais, não prosseguiu os estudos.
Com apenas dez anos circulava pelos retiros fadistas, onde assistia às atuações de inúmeros fadistas, passando, mais tarde, a aventurar-se em interpretações ainda de carácter amador. Tendo de escolher uma atividade profissional, Manuel de Almeida enveredou, aos quinze anos, pela carreira de desenhador de calçado de senhora, profissão que manteve até ser incorporado no exército para cumprir o serviço militar.
Antes de se iniciar nos circuitos de interpretação profissional do fado, Manuel de Almeida começa por ser autor de algumas letras, das quais se destaca o poema “Ala Arriba”, que Alberto Cardia interpretou e gravou em disco com grande sucesso.
A sua forma característica de interpretar o Fado ficou registada em cerca de uma dezena de LPs e quase três dezenas de singles. Os seus primeiros discos foram editados na década de 1950, e incluem os temas: “Tempos que já lá vão”, “Antigamente”, “Fado Ramboia”, “Fado da Saudade”, “Sofrer d’ Amor” e “Os Teus Olhos”.
É por sugestão de Maria Pereira, à data contratada da casa típica Tipoia, que Manuel de Almeida acede ao incentivo de experimentar cantar publicamente nesta casa. Como o próprio relata: “Fui e cantei dois fados. Desde logo passei também a participar do elenco da Tipoia”.
Assim, Manuel de Almeida só se profissionalizou com 29 anos, em 1951, para poder atuar regularmente na Tipoia, casa que funcionava sob a direção de Adelina Ramos, e onde obteve o seu primeiro cachet de 60 escudos por noite.
A partir do momento em que fez a sua estreia profissional, Manuel de Almeida abandonou definitivamente a sua outra atividade e desenvolveu, com grande sucesso, uma carreira no Fado, mantendo uma estreita ligação com as casas típicas.
O fadista cantou no Retiro do Malhão, no Estribo, no Olímpia Clube, no Faia e regressou à Tipoia, permanecendo no elenco durante 12 anos, de onde transitou para a casa “ Lisboa à Noite “, já na década de 1960, propriedade de Fernanda Maria, onde se fixa durante onze anos.
As atuações de Manuel de Almeida não se restringem às casas de Fado, fazem-se também em palcos, nacionais e estrangeiros, em programas de rádio, particularmente da Emissora Nacional, e de televisão. O fadista participou nas sessões experimentais da RTP, em 1956, e posteriormente faz aparições em inúmeros programas.
Dos seus espetáculos em território nacional destacam-se as deslocações ao Porto e a realização de uma festa artística, a 24 de Novembro de 1962, com lotação completamente esgotada no Pavilhão dos Desportos.
O seu primeiro LP individual foi gravado em Barcelona, mas, anteriormente, em 1963, tinha já lançado em Portugal um disco em parceria com a fadista Mariana Silva.
Manuel de Almeida recebeu o Prémio Bordalo (1963), Prémio da Imprensa, entregue pela Casa da Imprensa em 1964, na categoria “Fado” que também distinguiu a fadista Fernanda Maria e o letrista Linhares Barbosa.
Manuel de Almeida iniciou mais tardiamente os espetáculos no estrangeiro, em 1966 afirma mesmo que foi apenas ao estrangeiro uma vez, a Espanha, para se apresentar em casas particulares. Mas ao longo da sua carreira atuou em vários palcos das comunidades portuguesas espalhadas pelo Mundo.
É nas décadas de 1960 e 70 que a sua carreira atinge o apogeu, somando no seu repertório um conjunto próprio de duzentos fados, muitos dos quais da sua autoria.
Em 1971 deslocou-se com Ada de Castro a Moçambique, a convite do Centro de Informação e Turismo e voltou a Lourenço Marques, logo no ano seguinte, 1972, desta vez para atuar no restaurante “Muimbeleli”, em conjunto com Lucília do Carmo.
A 10 de Junho de 1977 participou nas comemorações do Dia de Portugal em Joanesburgo e, no mesmo âmbito, atuou, no ano seguinte, em Estugarda e em Fevereiro de 1985 fez várias apresentações nos Estados Unidos, na zona da Califórnia, e, mais uma vez, o sucesso foi tal que o levou a regressar no ano seguinte.
Acompanhando Rão Kyao, fez chegar o Fado à Coreia do Norte, com a participação no Festival Internacional de Música Típica, no ano de 1986. A sua colaboração com Rão Kyao prosseguiu no ano seguinte, quando este produziu o LP “Eu Fadista Me Confesso”, disco que teve grande destaque na imprensa e que foi reeditado em formato CD em 1992.
Em 1993 participou no Festival Internacional de Music Croisée em Saint Sever, um marco importante para o longo percurso do fadista, uma vez que recebeu um prémio de interpretação e, ainda, uma medalha da cidade.
A 21 de Fevereiro de 1994, comemorando os 50 anos de carreira com um espetáculo de homenagem no Teatro São Luiz, Manuel de Almeida continuava a apresentar-se com regularidade em espetáculos ao vivo.
Manuel de Almeida tornou emblemáticas as suas interpretações do “Fado Antigo” e “Mãos Cheias de Amor”, mas popularizou, também, vários poemas das sua própria autoria como “Não vale a pena meu bem”, “Por te querer tanto”, “Tempos que já lá vão”, “Longe de ti”, ou “É a saudade”.
Na Sociedade Portuguesa de Autores estão registados mais de 50 temas atribuídos ao fadista, seja como poeta ou compositor.
O fadista centrou-se mais na interpretação do fado castiço, considerando que este era o que melhor se adaptava à sua maneira de ser. É também como representante fidedigno deste género que ele é mais admirado no universo fadista.
Paralelamente, durante toda a sua vida, Manuel de Almeida foi apaixonado pelo desporto, tendo praticado, basquetebol, atletismo e boxe, mas foi ao atletismo que se dedicou durante mais tempo. Mantendo a sua boa forma, o fadista de 1,80 m, manteve sempre uma atividade física, correndo de forma regular nas pistas do Estádio Nacional ou praticando ciclo turismo.
Reconhecendo a sua ligação ao concelho de Cascais o seu nome está atribuído a uma rua da cidade e a outra situada em Alcabideche.
O Museu do Fado, em coprodução com a Associação Portuguesa dos Amigos do Fado, prestou homenagem a Manuel de Almeida a 23 de Novembro de 2006, numa apresentação de Ana Maria Mendes acompanhada por um diaporama de Vítor Duarte, integrada no ciclo “Amigos – Memórias e Fado”.

Alguns Prémios e homenagens:
– Diploma de agradecimento do Senado de Rhode Island pela sua contribuição para a Cultura da Comunidade Luso-Americana;
– Prémio da Imprensa, atribuído pela Casa da Imprensa, em 1964;
– Prémio Gratidão, atribuído pela Casa da Imprensa, em 1992;
– Prémio de interpretação no Festival Internacional de Music Croisée, realizado em Saint Séver (França), em 1993;
– Medalha da Cidade, Saint Séver (França), em 1993;
– Prémio Carreira, atribuído pela Casa da Imprensa a título póstumo, em 1997.

O Forte Dom Rodrigo, em Cascais, propriedade de Rodrigo, foi a última casa de fados onde o fadista se manteve em atuação quase até ao final da sua vida. Manuel de Almeida faleceu em Cascais, com 73 anos de idade, em 1995. Em homenagem ao fadista, os seus familiares e amigos organizam anualmente uma reunião no dia do seu aniversário.

Playlist:

Manuel de Almeida – Tempos Que Já Lá Vão
Manuel de Almeida – Antigamente
Manuel de Almeida – Fado Rambóia
Manuel de Almeida – Fado da Saudade
Manuel de Almeida – Os Teus Olhos
Manuel de Almeida – Eu Fadista me Confesso
Manuel de Almeida – Fado Antigo
Manuel de Almeida – Mãos cheias de amor
Manuel de Almeida – Não vale a pena
Manuel de Almeida – Longe de ti
Manuel de Almeida – Cor dos Olhos
Manuel de Almeida – Olhos Fatais
Manuel de Almeida – Rouxinol do choupal
Manuel de Almeida – Trago guitarras no sangue
Manuel de Almeida – Pequenas Felicidades
Manuel de Almeida – Omnipotência (A)

 




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