Mi-Fá-Dó-Sol | 24 Abr 2019

Carlos Reis e Dino Marques

 

Programa: Mi-Fá-Dó-Sol

Descrição: Programa inteiramente dedicado ao Fado. Realizado por intérpretes do género musical, Mi-Fá-Dó-Sol foca-se na divulgação de artistas e eventos, sem deixar de lado a história e as curiosidades de tão importante património português!

De:  Carlos Reis e Dino Marques

Emissão: 24 Abr 2019

Artista em Destaque:Carlos Zel

António Carlos Pereira Frazão nasceu em 29 de Setembro de 1950 na Freguesia da Parede, Concelho de Cascais, sendo precisamente aí na zona de Cascais e Estoril que começou a cantar, ainda com estatuto de amador.
Em 1967 com apenas 17 anos profissionalizou-se, adotando o nome artístico de Carlos Zel,
Nesse mesmo ano edita o seu primeiro álbum, Rosa Camareira.
Estreia-se, no ano seguinte, na Emissora Nacional.
Na viragem para a década de 1970, Carlos Zel integrou um conjunto de fadistas que se revelaram nesta época, dos quais se destacam João Braga, António Melo Correia ou José Pracana, artistas muito marcados pela procura de uma tradição interpretativa que veem corporizada essencialmente na figura patriarcal de Marceneiro e na referência mais próxima de Maria Teresa de Noronha. ”. São características do seu modo de interpretar “numa intensidade expressiva e uma riqueza de variação melódica incomparáveis na abordagem dos fados estróficos tradicionais”.
Um tema, “Nunca mais Darei um Cravo” traria a Carlos Zel polémica e fama ao ter sido gravado depois do denominado “Verão Quente de 1975” registado no ano seguinte à Revolução dos Cravos.
Cantor com várias presenças em programas televisivos,como o “Piano Bar”, de 1988, ou a série “Pisca Pisca”, de 1989”.
Carlos Zel também integrou, o elenco de algumas peças de teatro de revista. A título de exemplo refiram-se a “Aldeia da roupa suja”, peça apresentada em 1978, no Teatro Variedades, “A Severa”, levada ao palco do Teatro Maria Matos, em 1990, “Ai quem me acode”, estreada em 1994, no Teatro ABC, e ainda como fadista também nesse ano no musical Fados.
Para além disso o fadista também interpretou temas na telenovela “Desencontros” e surgiu, ainda, como ator, em episódios da telenovela “Cinzas”, de 1992, e da série “Polícias”, de 1996.
Em 1984, numa parceria com Carlos Escobar, o fadista abriu na Madragoa a casa de fados O Ardinita (título de um poema de João Linhares Barbosa, interpretado por Fernando Maurício), mas esta tornou-se numa experiência que durou apenas alguns meses.
Em 1994, o programa da RTP A Música dos Outros, apresentado por Luís Represas, dedicou o 10.º episódio à carreira musical de Carlos Zel.
Carlos Zel fez digressões e espetáculos em Espanha, França, Holanda, Escócia, Dinamarca, Noruega, Brasil, Argentina, Chile, Venezuela, Canadá, Estados Unidos e Senegal.
Em 1997 participa no espetáculo “Raízes Rurais, Paixões Urbanas”, de Ricardo Pais, levado a palco na Cité de la Musique de Paris, com a presença, também, de Argentina Santos.
Carlos Zel foi uma das pessoas do fado que Baptista-Bastos juntou no livro Fado Falado em 1999, prefaciado por José Saramago e com 26 conversas com nomes desde Alcindo de Carvalho a Vicente da Câmara.
Reconhecido como intérprete empenhado na divulgação do Fado, Carlos Zel foi um dos sócios fundadores da Academia da Guitarra Portuguesa e do Fado, em 1994. Por três vezes a Casa da Imprensa atribuiu a Carlos Zel prémios distintivos da sua atividade: em 1993 o “Prémio Prestígio”, em 1997 o “Prémio Neves de Sousa” e, em 2000, o “Prémio Consagração”.
Carlos Zel cantou em diversos espaços na linha de Cascais, como o bar Galito, ou em casas de fados como a Guitarra da Madragoa, e chegou mesmo a conciliar a atividade de fadista com a profissão de torneiro mecânico. Também o seu irmão, Alcino Frazão, foi um guitarrista de excelência, mas infelizmente viria a falecer muito prematuramente.
Em formato CD, Carlos Zel editou o álbum “Fados”, em 1993, lançou a coletânea “A Minha Primeira Cantiga”, em 1996, reeditou em CD várias faixas gravadas em vinil, , e participou no disco “Harpejos e Gorjeios” de Celina Pereira, em 1998.
O seu último trabalho em disco, de título “Com Tradição” (Movieplay), foi apresentado com grande sucesso, num concerto do grande auditório do CCB, a 23 de Outubro de 2000.
Nesta data é ainda bem notório que Carlos Zel “possui ligações maiores ao fado tradicional, com tudo o que ele possui de boémio e castiço”, embora apresente alguns temas provocatórios como o “Fado da Internet”; um poema de Daniel Gouveia, ou o “Retrato dum Alfacinha Sub-urbano”, um poema de José Niza que interpreta no Fado Corrido.
Este seria de facto o seu último trabalho em vida que inclui grandes fados clássicos como “Nossa Senhora do Fado”, “Poema do Nosso Amor” ou “Coração Atormentado” e ainda uma versão de “Fado Tropical” de Chico Buarque
Este trabalho, com chancela da editora Movieplay, inclui ainda canções escritas por Raúl Indipwo do (Duo Ouro Negro) e do filho do fadista, Nuno Frazão.
A acompanhar Carlos Zel encontramos José Luís Nobre Costa (guitarra), Francisco Gonçalves (viola) e Joel Pina (baixo).
Entre os seus muitos discos, contam-se os seguintes títulos: “Rosa Camareira” (1967), “Poemas de Eduardo Damas” (1968), “Maria dos Olhos Negros” (1969), “Minha Primeira Cantiga” (1971), O Seu Nome Era Manuel” (disco de homenagem ao toureiro Manuel dos Santos, editado em 1975), “Mestre Núncio” (disco de tributo ao toureiro João Núncio, editado em 1976), “Romeiro (1977), “Lusitano Vagabundo” e “Neste Rio Vou Morrer” (1978), “Cantigamente” (1980) e “À Volta do Fado” (1986).
No decorrer do ano de 2000, Carlos Zel foi um dos impulsionadores da programação “Quartas de Fado”, no Casino Estoril, onde atuava todas as semanas. Destaque-se que Carlos Zel foi o primeiro fadista masculino a fazer uma temporada de atuações no espaço do Casino Estoril. Em 2010 a Movieplay editou o CD “Quartas de Fado”, numa póstuma homenagem que deu a conhecer um conjunto de gravações ao vivo deste programa, com Carlos Zel e convidados, entre 1 de Novembro de 2000 e 19 de Dezembro de 2001.
Possuidor de um estilo onde a tradição interpretativa nunca deixou de marcar presença, Carlos Zel popularizou temas como o “Meu amor morre no mar”, “Sonho louco”, “Palavra à solta”, “Prece”, “Fado Pechincha”, “Tenho saudades da baixa”, “Amar outra vez”, “Quero tanto aos teus olhos” ou “Travessa do poço dos Negros”. E, apesar de ser uma referência nacional enquanto fadista, o seu percurso registou tentativas de abrir o fado a outras sonoridades, fazendo algumas experiências ao lado de Luís Represas, no projeto “Cantautores”, da Expo’98, com Maria João e Mário Laginha, num espetáculo do Anfiteatro da Doca, também na Expo’98, e com Carlos Zíngaro, Cesária Évora e Celina Pereira, em trabalhos discográficos.
Com mais de 30 anos de carreira, subiu ao palco no teatro de revista e musical, participou e apresentou vários programas de televisão, e na música, para além de fazer parte do elenco de várias casas de fado, actuou em todos os casinos portugueses de então e protagonizou espectáculos aquém e além fronteiras.
O fadista Carlos Zel teve uma carreira marcante na história mais recente do fado, interpretando de forma muito própria temas que aliam a tradição à contemporaneidade.
Numa homenagem póstuma, a Câmara Municipal de Cascais atribuiu o seu nome a uma travessa na Parede e a uma rotunda em Birre.
Também o Casino do Estoril passou a realizar a “Gala de Fado Carlos Zel”, com regularidade anual, num evidente tributo ao fadista, onde já marcaram presença grandes valores do fado como Aldina Duarte, Alexandra, Ana Moura, Carlos do Carmo, António Zambujo, Jorge Fernando, Ricardo Ribeiro, entre muitos outros.
Carlos Zel faleceu a 14 de Fevereiro de 2002, em Cascais, com 51 anos.
“Há várias maneiras de se cantar o fado. Há quem cante com a cabeça, com a garganta ou com o diafragma. Eu canto com o coração”.

Playlist:

Carlos Zel – Nunca mais darei um cravo
Carlos Zel – Fado Da Internet
Carlos Zel – Retrato De Um Alfacinha Sub-Urbano
Carlos Zel – Nossa Senhora do Fado
Carlos Zel – Poema Do Nosso Amor
Carlos Zel – Fado Tropical
Carlos Zel – Meu amor morre no mar
Carlos Zel – Palavra a solta
Carlos Zel – Prece
Carlos Zel – Fado Pechincha
Carlos Zel – Quero tanto aos olhos teus
Carlos Zel – Fado Maluda
Carlos Zel – Toma lá beijinhos de água
Carlos Zel – Poesia Estranha
Carlos Zel – Fado dos sonhos
Carlos Zel – A Beira Mar




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