Mi-Fá-Dó-Sol | 28 Ago 2019

Carlos Reis e Dino Marques

Programa: Mi-Fá-Dó-Sol

Descrição: Programa inteiramente dedicado ao Fado. Realizado por intérpretes do género musical, Mi-Fá-Dó-Sol foca-se na divulgação de artistas e eventos, sem deixar de lado a história e as curiosidades de tão importante património português!

De:  Carlos Reis e Dino Marques

Emissão: 28 Ago 2019

Destaque: Marisa

Marisa dos Reis Nunes  é o nome de nascimento da fadista portuguesa segundo ela própria corrige na TSF à conversa com Carlos Vaz Marques dizendo que é «cantadeira de fados».
Tem sido presença regular em palcos em Nova Iorque em Paris, Austrália e Inglaterra e em muitos Países espalhados por esse mundo fora.
O jornal britânico The Guardian considerou-a «uma diva da música do mundo».
Já vendeu mais de um milhão de discos em todo o mundo, sendo uma das recordistas de vendas de discos em Portugal.
Marisa nasceu em Lourenço Marques (atual Maputo), capital da província ultramarina portuguesa de Moçambique.
Filha de pai português, José Brandão Nunes, e mãe moçambicana, Isabel Nunes. Nasceu prematura, de seis meses e meio sem qualquer justificação clínica aparente, e, segundo declarações da cantora à SIC, o pai considerava-a o bebé mais feio que alguma vez vira. Segundo ela «ainda tinha as orelhas coladas e os olhos por abrir»   e o próprio pai pensou que não sobreviveria.
Ao colo da mãe, com três anos, chegou ao Aeroporto da Portela em Lisboa, pela primeira vez em 1977.
Na atual Maputo, o pai trabalhara como gerente de uma empresa Holandesa de nome Zuid. Durante o êxodo das famílias portuguesas nas antigas colónias ultramarinas portuguesas, o pai abandonou Moçambique com a família mais chegada, escolhendo Lisboa para recomeçar uma nova vida. Instalaram-se em Corroios e mais tarde no n.º 22 da Travessa dos Lagares, na Mouraria.
Em 1979 reabriram o restaurante Zalala no bairro típico de Lisboa, Mouraria, berço do fado e frequentado por inúmeros fadistas de referência, como Fernando Maurício e Artur Batalha bem como Alfredo Marceneiro Jr, filho de Alfredo Marceneiro, que levou Mariza com 7 anos a cantar pela primeira vez num ambiente profissional na Casa de Fado Adega Machado.
Foi o pai que determinou o gosto da cantora pelo fado.
Segundo ela, o pai estava «sempre a ouvir fado e, na hora das refeições, nunca se via televisão; ouviam-se discos, sempre de fado…» Fernando Farinha, Fernando Maurício, Amália Rodrigues, Carlos do Carmo, entre muitos outros, eram os prediletos de José Nunes, e foram os que mais influenciaram a forma de cantar de Mariza.
Com cinco anos de idade, recebeu o seu primeiro xaile, e começou então a moldar a voz que a tornou famosa. Ali cruzou-se «com tantos fadistas que as suas caras já se esfumam na memória».
O restaurante permanece fechado há vários anos mas ainda conserva na porta a placa com o seu nome e uma legenda que diz «O cantinho do artista».
Apenas na adolescência começou a ser levada a sério como cantora, mas os pais admitiram em várias entrevistas saberem que a filha tinha um «dom». O primeiro fado que interpretou no Zalala foi Os Putos, de Carlos do Carmo, que o seu pai lhe ensinou fazendo desenhos em toalhetes de papel. Ainda a menina não sabia ler, e era a forma de decorar os fados preferidos pelo pai, assim como Ó Ai Ó Linda e Menina das Tranças Pretas.
O recreio da escola primária da Mouraria era um palco para a menina de seis anos. Em entrevista ao Correio da Manhã, a antiga auxiliar de educação da escola, Dª. Fernanda, referiu que a jovem fazia uma roda com as colegas e depois ia para o meio delas onde cantava, com as professoras de vigia nos vestíbulos ou atrás das janelas, para que não se sentisse constrangida.
Outro dos seus hobbies era o sapateado, praticado à porta de casa com caricas de Coca-Cola coladas nos sapatos. Cantava em casa e, a cumprir o papel de microfone, utilizava latas de laca e desodorizantes. «Era a minha imitação do Fred Astaire!», declarou posteriormente.
Já na adolescência, Mariza passa a frequentar a Escola Secundária Gil Vicente. Era hábito seu fugir de casa para ir ouvir as noites de fado para o Grupo Desportivo da Mouraria, onde permanecia à porta, já que não lhe permitiam a entrada.
Até se assumir como fadista cantou diversos géneros musicais como, pop, gospel, soul, jazz e ainda música ligeira, acompanhando o artista/cantor Luís Filipe Reis. Na época, não caía bem entre os amigos dizer que um dos seus hobbies era cantar fado. Formou com alguns amigos uma banda de covers de nome Vinyl, e costumavam cantar no bar Xafarix, em Lisboa. Mais tarde formou os Funkytown.
A música brasileira era uma atração para Mariza que viveu durante cinco meses no Brasil, no ano de 1996.
Foi numa das mais típicas casas de fados de Lisboa, o Sr. Vinho, propriedade de Maria da Fé e de José Luís Gordo, situada na Lapa, que Mariza começou a cantar mais profissionalmente. «Maria da Fé foi praticamente a professora dela aqui», segundo José Luís Gordo, que chegou a escrever dois fados para a intérprete. A primeira música que cantou em público foi Povo que lavas no rio. Cantou também no Café Café, propriedade de Herman José.
Em 1998 actua, a convite da Caixa Económica Luso-Belga, em Bruxelas e Amesterdão.
Em 1999 é convidada por Filipe La Féria para a lista de cantores que homenagearam Amália Rodrigues num espetáculo no Coliseu de Lisboa (e depois no Coliseu do Porto), transmitido em direto pela TVI. Entre as músicas que cantou estava Oiça lá ó Sr. Vinho e Estranha Forma de Vida.
2001 foi o ano em que Mariza editou o seu primeiro álbum, Fado em Mim, primeiro em Portugal e depois em 32 países. Entre as principais faixas do disco encontram-se ChuvaÓ Gente da Minha Terra e Oiça lá ó senhor vinho.
O disco é uma espécie de tributo a Amália Rodrigues, já que muitas das músicas eram do seu repertório. Uma das músicas que conseguiu melhor repercussão foi ChuvaBarco Negro surge também numa versão bastante diferente da original, ritmada pela percussão de João Pedro Ruela. Loucura, uma das mais emblemáticas músicas do seu repertório, iniciou não só este disco como dois dos seus principais concertos: o concerto em Lisboa, nos jardins da Torre de Belém, do qual se originou um álbum que recebeu uma nomeação para um Grammy Latino, e o concerto no Pavilhão Atlântico.
Com este CD surgiram as primeiras turnés no estrangeiro e os primeiros prémios e nomeações. O primeiro prémio que recebe foi atribuído, em 2001, ao álbum Fado em Mim pela crítica alemã.
Em menos de doze anos, Mariza passou de um fenómeno local quase escondido, partilhado apenas por um pequeno círculo de admiradores lisboetas, para uma das mais aplaudidas estrelas do circuito mundial da World Music.
Deu os primeiros concertos fora de Portugal através de convites de vários teatros e salas. Nos Estados Unidos, por exemplo, entre a plateia de um espetáculo estava a esposa do secretário de estado do país, Colin Powell, que se fazia acompanhar pela esposa de um senador. Apresentou o seu disco no Central Park de Nova Iorque e no Hollywood Bowl de Los Angeles, mas numa entrevista referiu ter gostado mais do espetáculo que deu no grande auditório do New Jersey, por ser um espaço mais pequeno e intimista.
Tudo começou com o seu primeiro CD, Fado em Mim, que depressa conduziu a numerosas apresentações internacionais de grande sucesso – o Festival de Verão do Québec, em que recebeu o Primeiro Prémio, o Central Park de Nova Iorque, o Hollywood Bowl, o Royal Festival Hall, o Festival Womad – e que acabou por lhe conferir o prémio da BBC Rádio 3 para o Melhor Artista Europeu na área da World Music.
Fado em Mim era um primeiro álbum entusiasmante, mostrando uma jovem cantora com uma voz cheia e vibrante e um a forte personalidade artística. Cantava ainda vários sucessos do repertório de Amália, mas a sua abordagem à herança da grande diva do fado era já tão pessoal que podia facilmente afastar de si qualquer sugestão de mera imitação. E no seio do seu repertório original Ó Gente da minha Terra, do jovem compositor Tiago Machado, depressa se converteu num enorme sucesso, por direito próprio.
O CD vendeu muito bem em Portugal, liderando os tops portugueses, tal como todos os restantes álbuns da fadista viriam a liderar (tendo em 2007conseguido a proeza de ter 3 álbuns seus simultaneamente no top dos 15 mais vendidos de Portugal). Nos Países Baixos também obteve sucesso comercial, assim como no Reino Unido e na Finlândia. Nos Estados Unidos o álbum chegou a atingir o sexto lugar dos mais vendidos na área de world music.
No Mundial de Futebol de 2002, interpretou o hino nacional português antes do início do jogo entre a Coreia do Sul, que jogava em casa, contra a seleção de Portugal.
Faz uma digressão pelo mundo, passando pela Tailândia, Itália, Holanda, Estados Unidos ou Espanha a convite da entidade reguladora do espetáculo, participou no Festival Womad 2002 no Reino Unido. O seu concerto no festival de world music foi gravado e lançado numa edição limitada para colecionadores. Entre as faixas, as que mais se denotam são Primavera e uma imponente interpretação de Estranha forma de vida.
Em 2002, no decorrer da promoção deste disco participou pela primeira vez no programa da BBC, e noutro programa de televisão francês e foi capa da revista . Depois retornou a Portugal onde atuou para sala cheia, no Rivoli, a 27 de Setembro, e no Grande Auditório do CCB, a 1 de Outubro, duas das grandes salas portuguesas de espetáculos. Sobre esses dois espetáculos e em resposta à pergunta feita por vários jornalistas de várias publicações, Mariza fez uma declaração que ficou famosa e se tornou um emblema da comunicação social sempre que regressa das turnés do estrangeiro a Portugal.
De regresso a Londres a 24 de Novembro, esgotou com dois meses de antecedência o Purcell Room do The Royal Festival Hall, onde atuou no âmbito do Festival Atlantic Waves.
 Um ano depois de Fado em Mim edita Fado Curvo, que repete o sucesso do anterior obtendo a quadrupla platina novamente. O tema principal desta produção de Carlos Maria Trindade foi Cavaleiro Monge.
Era claramente um passo em frente no processo de reforço do seu estilo pessoal e do seu repertório próprio, com a ajuda de arranjos excelentes de Carlos Maria Trindade. Amália estava ainda presente, com a sua emblemática Primavera, sobre poema de David Mourão Ferreira, mas também o estava o cantor de intervenção José Afonso, um ícone da oposição democrática ao regime de Salazar nos anos 60 e 70, e muito do restante material era novo e inspirado.
As apresentações públicas de Mariza multiplicaram-se, com grandes triunfos pessoais no Royal Festival Hal de Londres, na Alte Oper de Frankfurt, no Théâtre de le Ville de Paris, no Walt Disney Concert Hall de Los Angeles (com a Orquestra Filarmónica de Los Angeles), no Teatro Albéniz de Madrid ou no Teatre Grec de Barcelona.
O seu estilo interpretativo deste período pode ver-se no seu DVD Live in London, que contém o seu recital de Março de 2003 na Union Chapel e demonstra bem os seus dotes vocais impressionantes e a sua autoconfiança crescente no palco.
Em 2004, juntamente com Carlos do Carmo, seria nomeada pelo Presidente da Câmara de Lisboa Embaixadora da candidatura do Fado à Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade, que viria a ser aprovada pela UNESCO em Novembro de 2011.
2005, ano em que recebeu o Prémio de Melhor Intérprete da Fundação Amália Rodrigues e foi nomeada Embaixadora de Boa Vontade da UNICEF, seria para Mariza um ano particularmente notável no plano artístico, com a saída do seu terceiro CD, Transparente. Neste álbum emergiria uma sua faceta nova e mais madura, tão segura dos seus dotes vocais que podia agora dar-se ao luxo tanto de sussurrar e de cantar baixinho como de demonstrar os seus plenos poderes, construindo o clímax de cada frase de um modo que impressionava pela serenidade e pela inteligência, articulando o texto de uma forma ainda mais expressiva.
Soube encontrar a oportunidade para homenagear três grandes fadistas com os quais sente profundas afinidades artísticas e pessoais:
Amália, cujo Segredo, de Reinaldo Ferreira e Alain Oulmain, fora o último original lançado em sua vida;
Fernando Maurício, que o público popular de Lisboa aclamava como “O Rei do Fado” e com quem ela própria cantara por diversas vezes no bairro da Mouraria em que ambos viviam;
e Carlos do Carmo, cujos conselhos Mariza sempre reconheceu como um importante fator formativo na sua personalidade artística e ao qual se dedicava uma versão muito afetuosa de um dos seus maiores sucessos, Duas Lágrimas de Orvalho.
O repertório era agora mais variado, tanto em termos musicas como no plano poético, e apoiava-se em orquestrações extraordinárias de Jacques Morenlembaum
Porém, a música que mais se destaca é Primavera, poema sublime da autoria do escritor e poeta lisboeta David Mourão-Ferreira, e proveniente do repertório amaliano. Tornou-se uma das grandes paixões de Mariza, algo que refere cada vez que o canta ao vivo, e antes deste disco ser gravado, já fazia parte do repertório dos espetáculos da intérprete.
A 8 de Novembro de 2007, no concerto no Pavilhão Atlântico, a intérprete foi aplaudida de pé durante seis minutos consecutivos no final da interpretação de Primavera.
Em 2007 foi uma das estrelas principais do filme Fados, do realizador espanhol Carlos Saura, exibido em quase cem países e no ano seguinte participou de forma destacada na primeira série documental da televisão pública portuguesa sobre a História do Fado, Trovas Antigas, Saudade Louca, narrada por Carlos do Carmo sobre guião de Rui Vieira Nery.
Também em 2008 surgiu o seu quarto álbum, Terra¸ com direção musical de José Limón, reunindo o novo repertório que interpretara nas suas digressões mais recentes, com sucessos como Alfama e Rosa Branca e parcerias com Tito Paris, Concha Buika, Ivan Lins e Dominic Miller.
A par desta, destacam-se outras músicas, entre elas, uma homónima do disco, Fado Curvo, da autoria de Carlos Maria Trindade, música esta que estreita a relação do fado com a dança, devido ao seu teor alegre e mais contemporâneo. Segundo a intérprete, este fado relaciona-se com a sua vida pessoal e com a vida de qualquer ser-humano, já que esta nunca é linear.
No álbum interpreta Caravelas, baseado num poema de Florbela Espanca, da qual também já havia gravado um fado no CD anterior, e logo a seguir canta um poema de Gil do Carmo, um registo mais leve e contemporâneo, que se refere à cidade de Lisboa e ao Tejo. É igualmente a música mais curta do disco. Anéis do meu cabelo é outro dos temas do álbum, com base num poema de António Botto que parece ter sido feito à medida da imagem da intérprete.
O álbum ainda inclui um fado de Coimbra, da autoria de Zeca Afonso. Mariza, pelo que ela própria conta em entrevista ao Público com Miguel Francisco Cadete, interrogou-se com a interpretação deste fado, pelo seu significado político e pelo simples facto de que não é costume as mulheres cantarem fados de Coimbra.
A música ser-lhe-ia útil a partir de 2005, aquando da sua nomeação como Embaixadora da Boa Vontade da UNICEF, e esta era uma forma cantada de transmitir uma mensagem ao público.

Playlist:

Mariza – A chuva
Mariza – Anda O Sol Na Minha Rua
Mariza – As Meninas dos Meus Olhos (Fado Alfacinha)
Mariza – Boa Noite Solidão (Fado Carlos da Maia)
Mariza – Recusa
Mariza – Dona Rosa (Fado Bailarico)
Mariza – Desalma (Fado Alberto)
Mariza – É Mentira
Mariza – Fado Refúgio
Mariza – Fado Tordo
Mariza – Há Palavras Que Nos Beijam
Mariza – Na Rua do Silêncio (Fado Alexandrino)
Mariza – Quebranto
Mariza – Loucura
Mariza – Mais Uma Lua (Fado Varela)
Mariza – Meus Olhos Que Por Alguém (Fado Menor do Porto)




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