Mi-Fá-Dó-Sol | 30 Out 2019

Carlos Reis e Dino Marques

 

Programa: Mi-Fá-Dó-Sol

De:  Carlos Reis e Dino Marques

Emissão: 30 Out 2019

Descrição: Programa inteiramente dedicado ao Fado. Realizado por intérpretes do género musical, Mi-Fá-Dó-Sol foca-se na divulgação de artistas e eventos, sem deixar de lado a história e as curiosidades de tão importante património português!

Destaque: Rodrigo

Rodrigo Ferreira Inácio, conhecido no mundo do fado por Rodrigo, nasceu a 29 de Junho de 1941, na freguesia da Graça, em Lisboa.
Com 4 anos, mudou-se com seus pais e irmã para o Bairro da Encarnação e ali, fez a Escola Primária com distinção e aos 10 anos entrou para a Escola Eugénio dos Santos, para o Ciclo Preparatório.
Nasceu no seio de uma família com enormes carências económicas, e com 12 anos pediu aos pais (apercebendo-se das dificuldades financeiras ao tempo existentes no seio familiar) que o deixassem trabalhar, pois continuaria os estudos de noite e assim, arranjou o seu primeiro emprego numa grande empresa de peças para automóveis.

Cerca de um ano mais tarde, o seu padrinho de batismo colocou-o na Companhia Colonial de Navegação, onde se manteria até aos 19 anos e entretanto, completa o 5º Ano do Liceu.
Ainda sem ter completado 18 anos, Rodrigo trava conhecimento com alguns músicos que estavam em fase de formação dum grupo vocal, e que mais tarde se viria a chamar “Os Cinco Reis”, do qual viria a fazer parte tendo assim a oportunidade de realizar a experiência tão desejada que era cantar.
Tratava-se de um conjunto de música latino-americana que interpretava músicas latino-americanas, em versões portuguesas.

Este grupo obteve grande sucesso no início dos anos 60, tendo participado em muitos programas de televisão, em direto e apresentando-se em muitas salas de Lisboa e não só, donde se destaca o então famosíssimo “Passatempo para Jovens”..
Este conjunto acaba por se desmembrar devido ao serviço militar de alguns dos seus elementos, entre os quais Rodrigo.
Entretano, teve uma experiência riquíssima que ainda hoje recorda, passou alguns meses comprando peixe nas praias e a vendê-lo na Ribeira Lisboeta. Esta experiência permitiu-lhe lidar de muito perto com os Homens do Mar, criando uma enorme admiração por toda essa humilde, mas nobre gente, aprendendo com eles muito da sua filosofia de vida.

Aos 21 anos de idade Rodrigo emigra pela primeira vez, com destino a França, impelido por uma vontade de conhecer e aprender novas coisas.
Na véspera da viagem, juntamente com os amigos, foi dar uma volta pelas capelinhas, como se dizia na época e terminam a noite de despedida numa casa de Fados em Alcântara, a “Cesária”, local onde nunca tinha entrado e que passa a ser uma experiência singular para Rodrigo, não só pelo ambiente que o rodeia, como pelo facto de cantar pela primeira vez em público.
Incitado pelos amigos, resolveu participar daquele ambiente fadista cantando o único Fado que sabia e estava muito em voga na altura: “Biografia do Fado” celebrizado por um grande senhor do Fado- Carlos Ramos.
Dos que o ouviram, ninguém queria acreditar que aquele rapaz desconhecesse outros fados e mais ainda, que seria a primeira vez que o teria feito. Depois de muitas explicações (toda a gente o queria ouvir cantar mais), mas lá acreditaram, por sentirem estar a falar a verdade.

Ao integrar-se naquele ambiente sentiu algo de muito forte naquela sala, perguntando a si próprio “Que Fenómeno este tão estranho, que leva todos os presentes a transformarem-se quando se ouve o tocar duma guitarra acompanhando qualquer voz por muito rouca que seja e sentir que em tudo aquilo, há muito de Portugal?”.
Este momento deixa marcas na sua vida e durante a permanência em França sintonizava os programas da Emissora Nacional para ouvir Fado e com bastante surpresa sua, o momento que mais recordava, para além da saudade que sentia da família, era o daquele mágico momento fadista.
Citando uma sua afirmação: “Depois de cantar, fiquei muito surpreendido comigo mesmo e virou paixão, como se tivesse levado uma martelada. Nunca mais pensei noutra coisa”.
Foi esta a sua “apresentação ao Fado”, um sucesso entre os que o ouviam, deixando-o definitivamente seduzido pelo género.

Rodrigo regressa em definitivo a Portugal aos 26 anos contrai matrimónio e começa a trabalhar nas “Páginas Amarelas”, sem nunca deixar o hábito que ganhara durante as estadias em Lisboa de frequentar Casas de Fado para Amadores, onde então dava largas ao seu “hobby” preferido, cantar o Fado.
Passa então a frequentar e a cantar assiduamente nas casas de Fado amador, a sua grande maioria situadas em Cascais e arredores, onde conhece uma singular geração de fadistas; Teresa Tarouca, António Melo Correia, João Braga, José Pracana, Carlos Zel, Carlos Guedes Amorim, Teresa Siqueira, entre outros. Começou a ser solicitado para espetáculos ao vivo e convidado para a primeira gravação.
Aos 28 anos grava o seu primeiro disco, “A Última Toirada Real em Salvaterra” um tema de Maria Manuel Cid, na música do Fado Freira de Casimiro Ramos.
Embora o tenha gravado na qualidade de amador, o disco obteve enorme sucesso, o mesmo acontecendo aos discos que se seguiram.
É então que, no ”Verão quente” de 1975 em plena agitação revolucionária, que surge um fadista de êxito, já com grande popularidade, torna-se profissional, deixando o cargo de Sócio-Gerente de uma conhecida editora gráfica para se dedicar exclusivamente à sua paixão: O FADO.

A projeção nacional chegará com o álbum “Coentros e Rabanetes”, editado em 1976, e com ele inúmeros concertos, entrevistas e programas na televisão.
Rodrigo chega inclusive a ser convidado para uma Gala no Casino da Figueira da Foz.
Desde então Rodrigo passou a viver num amor condicional ao fado que lhe permitiu coisas que nunca sonhara.

Como ele um dia disse: “Por exemplo, fui convidado da rainha Isabel II para um beberete no iate Britannia. De que outra forma, que não pelo fado, eu teria esse convite?” declarou.
À Lusa, Rodrigo afirmou que “o segredo do fado é senti-lo e respeitar as suas raízes”. “Pois não há fado novo, o fado é sempre o mesmo”. Recordando o papel social do fado como “alerta e crítica social”, que hoje se esquece.

Playlist:
Rodrigo – Sol da Ribeira
Rodrigo – Terra Prometida
Rodrigo – Ser Português
Rodrigo – Sem Ar de Ralé
Rodrigo – Sangue na Arena
Rodrigo – Rosa da Madragoa
Rodrigo – Salada De Alface
Rodrigo – Renascer
Rodrigo – Raminhos de Violetas
Rodrigo – Quem me dera ser o vento
Rodrigo – A Última Tourada Real de Salvaterra
Rodrigo – Procura, País, Procura
Rodrigo – Às Ginjas Com Elas
Rodrigo – Bairro Alto
Rodrigo – É Tão Bom Ser Pequenino
Rodrigo – Eu Sou Povo e Canto Esperança
Rodrigo – Fado do 31

 

 



Publicação:
Catarina Pereira
Foto(s): Direitos reservados




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