A Noiva! – Um romance que leva Jessie Buckley ao estrelato (mais uma vez)
Escrito por Rádio AVfm em 10/03/2026
A Noiva podia ter deixado o altar e ninguém ia sentir a sua falta. Talvez de quem a incorpora, apenas.
Maggie Gyllenhaal apresenta a sua segunda obra como realizadora. Percebe-se logo uma tentativa de ser diferente e de ser criativa, e isso é bom. A atriz britânica (e agora realizadora) traz-nos uma figura familiar do terror, Frankenstein (Christian Bale), que se sente sozinho e procura uma médica para a ajudar a criar uma noiva só para ele. Nasce, assim, A Noiva! (Jessie Buckley), uma mulher com uma morte precoce, que é desenterrada e submetida ao mesmo processo de criação do próprio Frankenstein.
Algo que sobressai logo no início da sessão é a compaixão e simpatia de uma figura que é, de certa forma, mal-amada há muito tempo. O seu “dever” é assustar. Mas vemos um Frankenstein novo, reformulado, como uma peça quase humana que abraça a sociedade, mas que esta foge aos gritos, porque a sua imagem não muda aos olhos de uma sociedade. É o que chamam um “freak”. Uma aberração, em bom português. Esta falta de empatia da sociedade com o monstro é logo perceptível porque acompanhamos uma procura de evitar a solidão eterna, é essa a base do filme de Maggie Gyllenhaal. Mas é aqui que os problemas aparecem.
Existe um lote de ideias numeroso em A Noiva!, começando por Mary Shelley, a mítica autora original de Frankenstein e da sua noiva. Aparece frustrada, talvez por estar morta mas com muito por dizer, ou por querer mudar a sua própria história e não conseguir. A aparição desta figura tem o seu interesse, porque para além de reforçar a ideia de que Jessie Buckley é, possivelmente, a atriz mais versátil de Hollywood (e de que seguramente vai ser reconhecida no dia 15 de março pelo trabalho em Hamnet), é a ponte que o filme usa para incluir o feminismo, que depois se conecta diretamente com a procura pela felicidade e fuga do isolamento de Frankenstein. O feminismo desperta-se quando, durante o filme, surge um movimento social provocado não intencionalmente pela noiva, e isto é um ponto essencial porque a fuga da sociedade aos monstros, que referi há pouco, passa para uma aceitação e veneração do “ser diferente”, e no filme vemos isso a ser incorporado pelas próprias mulheres. Para além disso, é a ideia de revolução e revolta das mulheres que começa, lentamente, a ser incorporada na sociedade (recorde-se que o filme passa-se, inicialmente, na Chicago dos anos 30 e faz todo o sentido isto acontecer). Mary Shelley aparece, portanto, como uma figura feminista, com traumas pós-morte que não são muito claros para o espectador comum. A presença é positiva e pode dividir opiniões quanto à sua necessidade, mas fica a ideia de falta de contexto e tempo para esta figura. Fica também a sensação de que a revolução provocada pela noiva podia ser melhor explorada. Faltou, mais uma vez, tempo.
Fiquei com a percepção de que, desde o “nascimento” (ou ressurgimento) da noiva, a intenção é demonstrar o quão perturbada esta pode ser, e isso é fruto do seu ressurgimento anti-natura. Inclusive, as suas questões existenciais são, muitas vezes, pontos-chave e de rotura para o plot.

Acontece tudo rápido, mas de forma clara, ao contrário do movimento social, que tem um protagonismo curto e podia ser melhor explorado porque ia dar mais conteúdo ao filme. As questões existenciais da personagem interpretada por Jessie Buckley são o grande turning point do filme. Percebemos que a noiva não se lembra da sua vida recente pré-morte e acredita nas mentiras que Frankenstein conta sobre a antiga vida deles (vida essa que nunca existiu). A certo ponto, dá conta de que vive uma mentira e o romance proibido passa a problema. O timing desta descoberta é quase perfeito, porque entra diretamente em conflito com a fuga do casal às autoridades e proporciona um ambiente de tensão (típico de última meia hora de cinema), vivido até ao fim do filme.
Acredito que A Noiva! é um conflito entre a mixórdia de ideias que Maggie Gyllenhall tentou introduzir. Passa-se muita coisa, em vários lugares, com várias pessoas, por várias razões, num curto espaço de tempo. Conceitos pouco explorados, que mereciam mais tempo de ecrã, principalmente a ideia da revolução e o romance em si, que acontece muito rapidamente, mas de forma pouco concisa. No geral, é dado ao espectador um romance com referências culturais interessantes, mas que não convence a 100%. Notas para Christian Bale, que consegue representar a figura de Frankenstein de forma versátil, ao demonstrar de forma convincente a deambulação sentimental da personagem, e Jessie Buckley, que ao ser exímia nos seus papeis, reforça a ideia de que é a grande atriz de Hollywood neste momento. A sua performance baseia-se em três palavras: Versatilidade, emoção e amor (um amor gigante pelo que faz).
AVfm 












